Do fim do casamento. (série fim do namoro)

1 dez

por SQ.

Para continuar a nossa série é interessante relembrar a conclusão do primeiro artigo.

Aí chegamos ao ponto conclusivo desse primeiro artigo da série. Não existe pessoa errada, mas sim relacionamento errado. Não sabemos qual tipo de relacionamento é infalível e perfeito. Não sabemos nem se ele é possível. No entanto, já sabemos de um tipo que definitivamente não dá certo: o relacionamento monogâmico, estereotipado, hipócrita e desprazeroso que estamos acostumados a seguir.

Como visto no primeiro artigo, muitos namoros acabam transformando-se em casamentos. É especificamente sobre essa relação que o artigo de hoje irá tratar de desmoralizar. Com objetivo de ilustração, apresento abaixo um trecho do romance (ensaio) O Homem Sem Qualidades de Robert Musil. No momento, Ulrich e sua irmã Ágata conversam sobre relacionamentos e amor.

– Você conhece o mito que Platão relata, segundo modelos mais antigos, de que o ser humano original, inteiro, foi dividido pelos deuses em duas partes, homem e mulher? – Ela se soerguera apoiada no cotovelo e ficou inesperadamente vermelha, pois começou a achar-se bastante ignorante por ter perguntado se Ulrich conhecia aquela historia tão divulgada. E, decidindo-se rapidamente, acrescentou: – Agora essas infelizes metades fazem toda sorte de bobagens para se reunirem de novo. Isso está em todos os livros-texto das escolas superiores; infelizmente, não dizem por que isso não dá certo!

– Eu posso lhe dizer – comentou Ulrich, feliz, por ver o quanto ela entendera tudo direito. – Ninguém sabe qual das tantas metades que correm por aí é a sua. A gente agarra uma que parece ser a certa, e faz os mais vãos esforços de tornar-se um com ela, até ver definitivamente que não consegue.

– Se disso nasce um filho, as duas metades pensam, durante alguns anos da juventude, que pelo menos nessa criança se reuniram; mas é apenas uma terceira metade, que em breve revela o desejo de se separar o mais possível das duas outras, e procurar uma quarta.

Pág. 953. Ed. Nova Fronteira.

Do ponto de vista fisiológico, é óbvio que o ser humano é apenas um. O ideal platônico é mentiroso quando supõe que necessitamos encontrar algo, que supostamente nos falta, em outras pessoas a fim de preencher algum vazio. Seguindo pelo ponto de vista fisiológico, chegamos à bizarrice de imaginar que se nascemos sem uma perna, por exemplo, é nosso dever encontrar alguém que tenha nascido com três pernas. Em algum lugar do mundo existiria essa pessoa ideal que seria perfeita para nos completar. De modo que a junção aqui representaria a eliminação do excesso da última e o preenchimento da primeira. Resumindo, as duas pessoas teriam enfim duas pernas, e seriam perfeitas. Juntas, é claro. Mas pera aí. E se agora elas quisessem, cada uma a sua maneira, andar por diferentes caminhos?

Se no campo fisiológico essa hipótese beira a comicidade, no campo das metáforas ela é muito mais plausível. É prazeroso saber que alguma pessoa pensa parecido com você, que ela se encaixa no seu estilo de vida e que vocês realmente se completam. É claro que você consegue sobreviver sozinho, mas viver com alguém é muito melhor; o que não determina que só existe um alguém pra você; ou que você deva sacrificar seus amigos, sua vida pessoal e seus planos individuais como agradecimento.

Eliminemos o ideal platônico e temos um leque de possibilidades infinitamente maior. Antes só existia um alguém perfeito para se encaixar ao seu molde. Agora existem milhares de outros possíveis. Além disso, há também diferentes tipos de moldes que são flexíveis, gerando assim a possibilidade ajustá-los e alterá-los da maneira mais conveniente. E por que não a possibilidade de você alterar seu próprio molde para poder se encaixar em outros? Ora, se podemos tudo isso, por que não podemos também ser moldes livres sem a necessidade de se encaixar com outros para formar alguma outra coisa? Por que não podemos simplesmente ser moldes livres? Podemos. Mas agora vamos enfim discorrer sobre as peças que se encaixam para formar o estereótipo de molde burguês-cristão, arquitetado há muitos anos e usado como padrão por muita gente: o casamento.

Antes de chegar ao casamento, ainda é necessário perder dois pequenos parágrafos para entender a relação intermediária. O noivado é o momento onde se oficializa o acorrentamento virtual dos indivíduos. Ainda sem a assinatura no cartório e sem a bênção do padre, as alianças têm a função de segurar a relação. A aliança de noivado não tem outra função direta a não ser a de mostrar para os outros que tal pessoa já pertence a alguém. Dá mesma forma que, antigamente, os fazendeiros marcavam os bois com ferraduras quentes para demonstrar que aquele gado tinha dono. Hoje em dia alguma coisa mudou, e os fazendeiros passaram a colocar brincos nominais nas orelhas dos animais. Entre os humanos, a aliança perdeu espaço para as tatuagens com os nomes dos amantes.

É no noivado que a hipocrisia chega, talvez, no seu ápice. Entra a fase das despedidas de solteiro. Nas vésperas dos casamentos, os futuros maridos chamam os melhores amigos, que por sua vez, pagam prostitutas para saciar o desejo de novidade do amigo que irá se casar no dia seguinte. As futuras esposas aproveitam a ocasião para um chá de cozinha com as amigas, e para poder falar pela última vez dos paqueras da infância e adolescência. Algumas, é claro, aproveitam para se isolar no computador e se entregar as volúpias virtuais com desconhecidos nos chats mais libidinosos.

No dia seguinte, chega então o momento da oficialização da morte da individualidade. Os amantes se ajoelham na frente de uma figura, que de nada entende sobre relacionamentos amorosos, afinal passou sua vida no celibato, e esperam a bênção que irá sacramentar a união. O casal, que antes teve de passar por um curso na igreja para poder se casar; com as palavras já decoradas, juram, diante de testemunhas, fidelidade e cumplicidade para o resto da vida. Para os homens da lei, bastam as assinaturas e o contrato de extinção do indivíduo está oficializado.

Na festa, a noiva joga o buquê para as solteironas, que se acotovelam para receber a batata-quente recheada com a semente do casamento. Os homens carregam o noivo e cortam aos poucos sua gravata, enquanto recolhem doações dos convidados. A gravata representa sua vida individual. Cada corte uma liberdade extinta. E a doação uma indenização simbólica de cada perda e dano.

A partir daí surgem ou, se potencializam, os seguintes desprazeres:

– violações do contrato.
– irritação excessiva. (agora constante)
– recusa sexual e extinção dos beijos.
– violência física na educação dos filhos.
– violência verbal e física contra o próprio parceiro (em casos agudos)
– isolamento do casal separado por camas de solteiro.
– cinismo e tentativa de manutenção da imagem do casamento em eventos sociais. (festas comemorativas, aniversários, Natal)
– abandono dos cuidados pessoais básicos. (morte da auto-estima e da vaidade)
– perda da capacidade de auto-identificação (não reconhecimento do próprio eu dentro do mundo)
– esquecimento parcial ou total do flerte inicial que se deu no primeiro encontro do casal.

Deixaremos de lado o reconhecimento de casos raros que supostamente seguem os padrões convencionais cristão-burgueses monogâmicos em seus casamentos e são aparentemente felizes. Seria redundância reforçar todas as variantes possíveis e toda hipocrisia envolvida. Não obstante, viajaremos de volta ao livro O Homem Sem Qualidades para mais uma cena que ilustra bem o psicológico de uma mulher devidamente casada nos padrões sociais da época (inicio do sec. XX). Diotima, casada com um burguês conhecido e respeitado pela sociedade, se apaixonara por um homem mais jovem e de espírito livre.

No canto onde estavam os primos Diotima e Ulrich surgira entrementes a seguinte questão: uma mulher na difícil situação de Diotima deveria renunciar, deixar-se levar ao adultério, ou tomar uma terceira decisão intermediária, pertencendo fisicamente a um homem e espiritualmente a outro, e quem sabe não pertencendo fisicamente a ninguém?

Pág. 608.

Entre as morais cristãs que fundamentam o casamento, as que mais se evidenciam são o sacrifício e o repúdio ao corpo. As mães sacrificam suas vidas pessoais, suas vaidades, sua vida de mulher, suas amizades, enfim, tudo, pela manutenção do status de casamento e/ou para não expor a situação aos filhos. Os maridos aliviam os acúmulos de espermatozóides na internet, com amantes ou com prostitutas; voltam para casa envergonhados por terem que se submeter a isso, pela mentira que tem que contar para a mulher e pela ausência em relação aos filhos. Conseqüentemente, expiam seus “pecados” no corpo, objeto que aprendem a odiar cada vez mais.

Feitas as desmoralizações do namoro, noivado e casamento, o que nos espera no próximo artigo da série, é um convite a um passeio pelo mundo ético-hedonista, os relacionamentos alternativos e os casos históricos de relações que fugiram dos padrões aqui desmascarados. Longe de ser um imperativo a uma nova forma de amar e se relacionar, o próximo texto irá apenas propor uma viagem de trem, onde cada passageiro poderá descer na próxima parada, sentar e ver tudo pela janela, ou mesmo dormir. Certo é que ele não será o mesmo quando voltar para casa.

Anúncios

8 Respostas to “Do fim do casamento. (série fim do namoro)”

  1. Vinícius silvestre 1 de dezembro de 2009 às 8:57 #

    Casamento é uma instituição financeira, sempre foi.

    Se você quer juntar seus trapos, dividir as despesas ou financiar uma casa em dupla ajuda muito ter a união legalizada.

  2. Hypezinho do barulho 1 de dezembro de 2009 às 21:26 #

    O ser humano necessita sentir que está seguro, formar sua tribo, expandir seu povo… Isso se dá através da UNIÃO com outro alguém.
    O casamento, a cerimônia teatral, não passa de um detalhe fantasiado em excesso.
    Não há mal nenhum na tentativa de duas pessoas serem fieis e se dedicarem uma a outra, deixando de lado o egoísmo, o individualismo e praticando a tolerância.
    Quanto aos relacionamentos alternativos, será que alguém seria adepto a vida inteira a esse tipo de prática? Relacionamentos efêmeros e rasos realmente valem a pena?

  3. senhor de 56 3 de dezembro de 2009 às 19:15 #

    o Platão é um burro. E esse lance de monogamia também é uma chatice. Eu até que sonhava com a família do comercial de margarina, mas desde pequeno senti a falta de um pai, que também não teve saco para monogamia e saiu de casa. mas teve saco para fazer filhos! Um dia gostaria de ter um relacionamento monogâmico e duradouro, constituir família, acho que admiro esse pequeno costume humano de dar continuidade à espécie, por mais que ele possa estar baseado em religião. Um dia quero casar, e não precisa ser na igreja ou no cartório civil. Bem, deixa pra lá, são apenas sonhos, pois acho que nao chego muito longe, estou mais para o Don Quixote naquele livro barrrrrrrrbaro, lutando contra os “cataventos”.

  4. Gustavo Soares 4 de dezembro de 2009 às 14:37 #

    nao sei por que esconder a opiniao em alguma identidade falsa..coloque seu nome

  5. Conrado 4 de dezembro de 2009 às 17:43 #

    o sua bichona, tá aqui o meu nome. Nomes falsos fazem parte da tradição de blogs, até o Billy comenta no meu blog e eu não me importo. Beijo, e vê se aparece.

  6. Gustavo 4 de dezembro de 2009 às 21:35 #

    hiuaeuiheahieuahUIAEHUIHEAIUh
    agora sim baby

  7. Vinícius silvestre 5 de dezembro de 2009 às 0:45 #

    comentários anônimos são tão legais.

    eu romantizei tanto o senhor de 56, pena que o conrado se denunciou. Também achei o máximo o hypezinho.

  8. Hypezinho do barulho 8 de dezembro de 2009 às 23:37 #

    Melhor ocultar um nome e comentar algo a respeito do texto que revelar a identidade e tentar intimidar os leitores e comentaristas de maneira risível.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: