Do início do amor construído. Terceira e última parte da série o fim do namoro.

21 dez

por SQ.

Esta é a terceira e última parte da série “fim do namoro”. Não iremos propor um tipo de relacionamento perfeito ou ideal, absolutamente. Nas próximas linhas iremos viajar pelo mundo ético-hedonista e lembrar alguns casos de relacionamentos não-convencionais que funcionaram como alternativa ao relacionamento cristão-monogamico. Se no início da série o tom foi mais agressivo e direto, supondo um cenho franzido, dessa vez a leveza do amor hedonista nos transportará para um universo beirando um sorriso fantasmagórico. Sem mais. Partiremos!

Foto: lelove.blogspot.com

Dissemos no primeiro artigo: É no flerte que se dá uma das sensações mais prazerosas que o ser humano pode sentir. É nesse átimo de poucos segundos que dois olhares se encontram, que toda uma existência se faz valer à pena. O flerte, o primeiro beijo, o primeiro encontro sexual, a primeira briga e o primeiro pedido de desculpas são os momentos iniciais que mais elevam o nível de dopamina no cérebro. Com tanta paixão, sentimos aumento de energia, hiperatividade, insônia, perda de apetite, tremores, um coração aos saltos, respiração acelerada e às vezes mania, ansiedade ou medo. Esses momentos são cruciais para se definir uma relação. É nesse período de paixão que construiremos o amor que se seguirá ao arroubo da paixão. Sim, ele será da maneira que o casal escolher para ser.

Aqui. Deus não existe. Muito menos destino. O casal se encontra por puro acaso, da mesma maneira que vieram ao mundo, e não porque estavam predestinados a se amar. Aqui o casal é livre e senhor de seus prazeres e suas escolhas. Peço licença (tomo liberdade para sair da primeira do plural) para franzir o cenho por um minutinho e dizer que o amor não precisa ser inevitavelmente um sofrimento. Isso talvez seja uma das coisas mais idiotas que podemos acreditar. É bonito ler Goethe e se emocionar com o suicídio apaixonado de Werther, e ao fechar o livro, não há como não pensar: não tenho o amor de quem eu amo, vou me matar. Não! Esse cara tinha, no mínimo, complexo de inferioridade e deu azar de não conhecer o avanço da ciência cognitiva.

Mas tudo bem. A situação hipotética aqui é outra. O casal se apaixonou e estão construindo o amor que virá. Tomar conhecimento de que não estavam predestinados um ao outro os faz tão livres e conscientes da própria importância dentro da relação que são capazes de enxergar a efemeridade como aliada e não como inimiga, possibilitando então o pleno regozijo como nesse canto de Epicuro.

“Eu desmontei tuas cidades , ó destino, fechei todos os caminhos pelos quais podias alcançar-me. Não nos deixaremos vencer nem por ti, nem por nenhuma força nefasta. E quando soar a hora da inevitável partida, nosso desprezo por todos que se agarram em vão a existência irromperá neste belo canto: Ah! Com que dignidade vivemos!”

É um equívoco basear o sucesso de uma relação na sua duração, e um erro crasso acreditar na sua imortalidade. Quando dizíamos que a relação cristão-monogâmica não dava certo não era simplesmente porque acabava, mas porque ela dava muito mais desprazer do que prazer durante todo o tempo de relação. Temos conhecimento de casos de amor hedonista que duraram alguns dias e foram tão intensos a ponto de chamá-los de sublimes. Da mesma maneira que conhecemos, por exemplo, a relação entre Sartre e Simone de Beauvoir, que durou até que os dois morressem velhinhos.

De acordo com a biografia do casal, Sartre acreditava firmemente que, com forca de vontade, podia-se superar todos os desconfortos, emoções e obstáculos. Segundo ele, lágrimas e nervoso eram fraquezas. Somos seres livres, dizia Sartre, e podemos escolher. Ele quase não dava importância a funções fisiológicas, e não dava nenhuma ao condicionamento psicológico. É óbvio que não podemos concordar com ele nesse ponto. Emoções e lágrimas são elementos naturais da vida. Só o mais insensível dos homens poderia desprezar tais sentimentos. Entretanto, podemos aprender muito com sua filosofia. Ninguém, dizia ele, era um gênio a não ser que expressasse a genialidade em suas obras. O mesmo se aplicava ao amor. “Não existe amor a não ser o que se constrói, o amor só é possível se se manifesta numa relação amorosa”. Daí o lema do existencialismo: “A existência precede a essência.”

Sartre e Simone tinham freqüentes relações sexuais com parceiros distintos, e ainda comentavam os detalhes sobre os casos extras quando estavam juntos. Tal liberdade foi tentada também pelo biólogo americano Alfred Kinsey, responsável pela liberação sexual dos EUA nos anos 50. Esse chegou a pedir que a mulher transasse com outro homem no quarto da casa deles, enquanto ele ficava na sala lendo. Esse exagero parece demais até para as mentes mais hedonistas, de forma que não enxergaremos esses casos como exemplos prontos a serem seguidos, e sim como potencialidades de diversos tipos de relações que fogem do estereótipo cristão.

Pelo mesmo motivo, não encerraremos a série com um parágrafo conclusivo contendo a receita perfeita para a sua relação, leitor. Estamos chegando de volta, nessa viagem curta devido ao incomodo de se ler muitas linhas no computador, com a possibilidade de ganhar uma publicação impressa algum dia e aí sim poder ser mais vasta. Se há alguma conclusão é a de que somos livres; nos relacionamos por opção; e o amor é um sentimento flexível e completamente construído a partir das escolhas de quem se propõe a edificá-lo.
Foto: lelove.blogspot.com

“Tomas dizia consigo mesmo: deitar-se com uma mulher e dormir com ela, eis duas paixões não apenas diferentes mas quase contraditórias. O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres), mas pelo desejo do sono compartilhado (esse desejo diz respeito a uma só mulher)”. A Insustentável Leveza do Ser – Milan Kundera.

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7 Respostas to “Do início do amor construído. Terceira e última parte da série o fim do namoro.”

  1. conrado 21 de dezembro de 2009 às 23:29 #

    é como torcer pra time com nome de santo, maldita influência da igreja cristã. Eu realmente não vejo muita graça em canções de amor, parece que não fazem sentido, dá uma impressão de que 90% das músicas falam de amor. Entre tantas facilidades de natureza vulgar talvez o prazer possa estar naquilo que é raro, até mesmo num sanduíche, ou numa relação monogamica.

  2. Leonardo 22 de dezembro de 2009 às 11:51 #

    Eu quero morrer de amores…

  3. Conrado 22 de dezembro de 2009 às 12:17 #

    hauhauhauhauhauhaeuihaeuhae

  4. Vinícius silvestre 22 de dezembro de 2009 às 13:33 #

    Felicidade se inventa. Não dá mais pra levar a cabo as formulas pálidas de vivência com que fomos instruídos. Liberdade é pouco, as pessoas precisam entender e se encantar com a possibilidade de terem suas vidas construidas de maneira única.

    E não só com relacionamentos amorosos, mesmo com as relações de trabalho e amizade a desconstrução pode ser exercitada, a fim de permitir que caminhos novos e pessoais se apontem e tragam mais prazer e conforto durante nossa tão efêmera passagem.

  5. Velho Lobo 22 de dezembro de 2009 às 20:40 #

    Quanta perseguição. Desde quando foi o cristianismo que inventou as relações conjugais? A idéia defendida é um aborto do ponto de vista jusnaturalista.

    “Sartre e Simone tinham freqüentes relações sexuais com parceiros distintos, e ainda comentavam os detalhes sobre os casos extras quando estavam juntos. Tal liberdade foi tentada também pelo biólogo americano Alfred Kinsey, responsável pela liberação sexual dos EUA nos anos 50. Esse chegou a pedir que a mulher transasse com outro homem no quarto da casa deles, enquanto ele ficava na sala lendo.”

    Tem gente que gosta de ser cobaia, fazer o quê.

  6. Bruno Tolentino 22 de dezembro de 2009 às 20:56 #

    Milan Kundera é um ótimo escritor, mas não precisa ridicularizá-lo com esse raciocínio ilógico de 1+1 é diferente de 2.

  7. Bolo 23 de dezembro de 2009 às 11:53 #

    Com licença, vou bater uma punheta, rápida, prática e prazerosa.
    Agora me surgiu uma questão, será que se todas as mulheres andassem com os peitos de fora eles ainda teriam graça? Não me digam que eles seriam caídos.

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