Da importância do homem absurdo de Camus.

19 jan

por SQ.

Antes de começar a escrever resolvi pesquisar no dicionário Houaiss os significados da palavra absurdo. Entre eles, temos: que se opõe à razão e ao bom senso; projeto irrealizável, sonho, utopia. Depois chegamos a: qualidade ou condição de existência num mundo sem sentido e irracional. Ainda consta a significação filosófica do próprio Camus que seria falta de sentido ou de justificação racional para a existência do homem e do universo.
leia na íntegra.

Etimologia
lat. absúrdus,a,um ‘destoante, desagradável ao ouvido, que não convém, impróprio, incongruente, estúpido, tolo, sem sentido’; ver surd(i)-

Se não existir sentido na vida então qual o sentido em viver? Creio que essa pergunta deva preceder uma outra que Camus acredita ser a pergunta fundamental da filosofia: julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida.

(visto que tudo que entrar em itálico a partir de agora é retirado do livro O Mito de Sísifo de Albert Camus)

Pensemos no absurdo e no sentido da vida. Em pouco tempo é fácil entender a sua raiz etimológica. Soa realmente como algo desagradável ao ouvido, algo que não convém… sua raiz etimológica tem toda razão! Começar a pensar é começar a ser atormentado; ou é sentir a famosa Náusea, como talvez quisesse Sartre.

Não falarei aqui das imensas evasivas ilusórias propostas pelo misticismo e religião que tentam dar, cada um a sua maneira peculiar, um sentido especial a vida. Acredito que o leitor que até aqui chegou, está disposto a mergulhar no absurdo e ver onde isso vai levar. Ao contrário do leitor que, por acaso, acredita que está aqui… vejamos, cumprindo um karma, seguindo uma missão cristã, ou ainda, está aqui (nessa vida) para “evoluir” espiritualmente. Continuemos então em direção ao fundo do absurdo.

O mundo é absurdo. É possível encontrar respostas significativas e já concretas sobre algumas perguntas em relação à existência do ser humano. Sabemos que somos resultado de uma evolução entre espécies a partir de uma forma minúscula de vida comparada a uma bactéria, que isso se deu em um planeta, que por sua vez, se formou através de vários fenômenos naturais em uma galáxia que está dentro de um universo que não temos a condição de medir sua imensidão, por acaso! Isso me cheira perfeitamente como uma falta de bom senso, um projeto irrealizável, um sonho, uma utopia, como nos diz alguns dos significados da palavra absurdo no dicionário.

Mas esse mundo existe. Nós sabemos que estamos vivos. Sentimos. Estamos aqui nesse planeta, nesse universo. Apesar de já sabermos um pouco de como isso se deu, como chegamos até aqui, o mundo continua absurdo a partir do momento que reconhecemos sua falta de sentido, ou seja, seu movimento a esmo. Não estamos indo para lugar nenhum. Não estamos seguindo nenhuma rota nem direção. Apenas estamos. Enquanto vivos.

A náusea está. Mas o melhor remédio contra essa náusea é absurdamente o próprio absurdo. Vejamos.

Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece, pelo contrário, que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver.

Aceitamos então o absurdo e suas condições como: o fim inevitável e a inexistência do além-vida e do além-mundo. A partir de então, o peso de existir começa a ser mais ameno e as possibilidades para o homem, que antes eram escassas, agora se tornam gigantescas. O indivíduo nada pode no entanto pode tudo. Mas para isso é necessária e consciência do absurdo; é necessário reconhecer o absurdo e suas condições. É consciente, portanto é absurdo. Se não quer ser absurdo não pode ser consciente, assim que não sendo consciente é portanto alienado. Ainda sim o homem é livre para escolher entre ser consciente-absurdo ou alienado-ignorante.

É preciso viver com o tempo e morrer com ele. Privado do eterno, quero me aliar ao tempo.

Não somos livres para viver eternamente, embora somos livres para viver o hoje. Não somos livres para contemplar um futuro que nos escapa aos séculos, mas somos livres para agir diante do agora. Ora, se o absurdo aniquila todas as minhas possibilidades de liberdade eterna, também me devolve e exalta, pelo contrário, minha liberdade de ação.

A eternidade me cria barreiras. O além-ser e o além-mundo me escapam completamente. Não sou livre para planejar um futuro além da minha idade biológica possível. Por outro lado, o absurdo me abre portas. Esqueço o além-tempo e vivo o agora. Potencializo minhas experiências e meus sentidos; valorizo meus segundos de prazer e assim vivo intensamente.

Vê-se agora como o absurdo passa de náusea a um grande aliado e amigo. Vê-se na filosofia absurda de Camus um enaltecimento dos sentidos e conseqüentemente, mesmo que discreto, do hedonismo. Lemos. A carne é minha única certeza. Sentir o máximo possível, sua revolta (acrescento aqui seu absurdo), sua liberdade é viver o máximo possível. Extraio então do absurdo três conseqüências que são minha revolta, minha liberdade e minha paixão.

O leitor místico, religioso e portanto anti-absurdo, que por acaso se arriscara até aqui, poderia muito bem dizer que então o homem absurdo é imoral e nada virtuoso . Assim vivem os preguiçosos, diria, os conformados, que não planejam nem guardam pois não crêem no futuro; os devassos e os criminosos porque se nada existe tudo é permitido. Ora, essa filosofia de Ivan Karamázov seria mesmo um imperativo para imoralidade e para vulgaridade?

Tudo é permitido não significa que nada é proibido. O absurdo apenas dá um equivalente as conseqüências de seus atos. Não recomenda o crime, seria pueril, mas restitui sua inutilidade ao remorso. Pode-se ser virtuoso por capricho. “É preciso ser absurdo”, escreve um autor moderno, “não é preciso ser tolo”.

É possível então encarar a liberdade concedida pelo absurdo de maneira ética. Ser virtuoso é apenas uma dentre as muitas escolhas possíveis para o homem. Assim como ser amante dos sentidos e dos prazeres é uma opção para o hedonista, igualmente ser impassível e recusar o corpo com repúdio é uma escolha para o asceta. Cada pessoa é absurdamente livre para escolher o que ser. De tal modo, eu termino chamando mais uma vez aquele que foi motivo das minhas linhas.

Seguro de sua liberdade com prazo determinado, de sua revolta sem futuro e de sua consciência perecível, prossegue sua aventura o tempo de sua vida.

O que foi dito acima define apenas uma maneira de pensar. Agora, trata-se de viver.

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3 Respostas to “Da importância do homem absurdo de Camus.”

  1. espirrodabrisa 20 de janeiro de 2010 às 11:32 #

    Você já sabe minha opinião sobre isso. Só que, talvez, se o final fosse menos otimista acho que eu teria gostado mais. Tanto é que por isso devemos nos lembrar de Kafka que foi, provavelmente, o primeiro escritor a perceber esse “absurdo” da condição pós-moderna. E justamente por ser o primeiro é que não há em sua obra uma alternativa, ou uma saída à esse absurdo, como foi proposto pelo Camus. Acho que isso explica os “finais” abruptos, ou inacabados, dos seus livros, tanto pelo pessimismo quanto pela possibilidade dele não ter mesmo encontrado uma alternativa.

  2. bode 20 de janeiro de 2010 às 22:05 #

    muito interessante conhecer as definições de absurdo, conferir os significados dessa coisa sem significado. Gostei! teve uma época em que o meu plano para o futuro era ler Crime e Castigo, antes, era apenas tocar numa banda de amigos. A existência é demais. sei lá, cada um escolhe com que tipo de recheio vai encher a sua linguiça existencial, seja de maneira nobre, com livros, cultura, ou com bebidas e amigos. E o mais absuurdo é observar como a boa e velha religião consegue influenciar uma manada de gente, com seus rituais estranhos e com suas regras antigas. É isso aí, nada faz sentido, nós é que fazemos, ou não \o/

  3. ntnio 22 de janeiro de 2010 às 6:35 #

    Bom texto. Bom raciocínio, e boa elaboração da idéia.

    E ao Gabriel, respondendo a pergunta feita na fazenda, não acredito em deus.

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