Do Tempo das Tribos

28 jan

por Leonardo Stockler.

Neste artigo irei abordar o neotribalismo e sua relação com o individualismo.

Qual o espírito de nossa época? Há de fato alguma característica neste momento que seja observável em todas as suas esferas de atuação na sociedade? Ainda que não fosse, seria o suficiente para constituir um ponto de efervescência do qual pudéssemos extrair um diagnóstico sobre a era que vivemos? O individualismo (por vezes tão exaltado neste blog) encontra-se, de fato, em ascensão? Somos, como insiste Zygmunt Bauman, um conjunto de solitários perdidos numa sociedade pós-moderna?
leia na íntegra.
As necessidades de identificar-se e sustentar-se como indivíduo são mesmo tão irrevogáveis e irredutíveis ao ponto de serem consideradas inerentes à condição humana? Podemos diluir a realidade para que encontremos somente uma resposta? Talvez, por ser inviável e desinteressante, uma resposta apenas não seria o suficiente para elucidar a questão. E ainda que os valores de hoje respondessem a essa questão com um sonoro “sim!”, bastaria que abríssemos um pouco mais os olhos para encontrarmos uma relação interessante singular a esses nossos tempos.

Se o tribalismo é uma organização social rural, baseada no parentesco e na tradição, o neotribalismo é quase o seu oposto. Essencialmente urbano, é caracterizado pelos gostos (religiosos, sexuais, amicais etc.), pela efemeridade e transitoriedade. Com estes últimos aspectos estamos deveras acostumados, diga-se de passagem. Ora, poderíamos facilmente elencar aqui as inúmeras tribos modernas que conhecemos tão bem, sejam elas alvo de piadas ou não. Não só isso, mas é fácil observar a exorbitante quantidade de indivíduos que não apenas transitam entre uma tribo e outra em pequenos intervalos de tempo como também indivíduos que pertencem a várias tribos simultaneamente, em realidades palpáveis ou virtuais. O aspecto de transitoriedade (e por que não pluralidade?), tão comum em nosso tempo, conjuga, portanto, não apenas a velocidade da produção, da economia e da informação (esta última possui até um sentido agregador, que renderia um novo artigo), mas a das relações que não são pautadas através de interesses puramente mercadológicos.

Encontram-se na encruzilhada da pós-modernidade não só o louvor ao deus indivíduo, mas a busca frenética por grupos (grupismo) e por tribos com as quais nos identifiquemos. Nessa contradição podemos ver que, na verdade, ambos os sintomas estão relacionados de maneira dialógica: uma característica de espécie (a orgia, o ritual, a perda da individualidade, a identificação com o grupo) confrontada pela característica de um tempo (isolamento, autonomia, individualismo) produz resultados antagônicos que, na prática, podem agir sobre o mesmo objeto.

O sociólogo Michel Maffesoli nos alerta sobre esse embate argumentando que o individualismo minguou nos finais do século XXI com a despolitização massificada, uma vez que o Estado existe para proteger o indivíduo à sociedade e que agora vivemos um novo tempo das tribos, onde prevalece a perda da individualidade. Eis duas citações de sua autoria, retiradas da obra “O Tempo das Tribos”:

“De fato, ao contrário da estabilidade induzida pelo tribalismo clássico, o neotribalismo é caracterizado pela fluidez, pelos ajuntamentos pontuais e pela dispersão. E é assim que podemos descrever o espetáculo da rua nas megalópoles modernas”.

“A pessoa (personna) representa papéis, tanto dentro de sua atividade profissional quanto no seio das diversas tribos de que participa. Mudando o seu figurino, ela vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, amicais) assumir o seu lugar, a cada dia, nas diversas peças do theatrum mundi”.

Cabe aqui indagar se, de fato, somos e buscamos ser tão “individuais” quanto pensamos e dizemos.

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4 Respostas to “Do Tempo das Tribos”

  1. strikingquadra 29 de janeiro de 2010 às 4:19 #

    post interessantissimo. precisamos pensar por esse lado, realmente.

    mas a individualidade sempre falada aqui nao é simplesmente a individualidade em si, mas a liberdade dela, que inclui a liberdade do individuo de escolher qual “tribo” se encaixar.

    nao podemos confundir direito do individuo com auto-suficiencia ou isolamento social; seria um erro imbecil pensar desse modo.

    atente-se a isso e parabens pelo estréia no blog com este post que vale a pena ser lido e relido.

  2. Vinícius Silvestre 2 de fevereiro de 2010 às 21:46 #

    Infelismente ou felizmente não há formula a se seguir rumo à identidade.

  3. espirrodabrisa 5 de fevereiro de 2010 às 21:30 #

    Não existe identidade.

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