Como conheci Cat Power.

4 mar

por Leonardo Stockler.

Era Fevereiro e, sempre em busca de me encontrar, procurava me distanciar o máximo possível de casa quando as oportunidades se apresentavam. É porque em casa eu ficava condenado a mim mesmo, ao tédio e à solidão e, por conta disso, Janeiro havia sido um dos piores meses da minha vida. Encontrar-me não significava, para mim, restringir minhas relações à solidão porque, por experiências próprias, isso só me deixava mais cansado de ser quem eu era.
leia na íntegra.

E, acompanhado de duas boas almas (dois rapazes), fui perder-me num país vizinho e por lá encontrei outra boa alma (uma garota), mas cujos propósitos, por apresentarem origens diferentes dos meus, eu desconhecia inteiramente. Já havia me perdido antes, no mês anterior, mas meu destino não havia sido atravessado dessa forma e, portanto, não deixou me deixou impressões tão indeléveis.
Na primeira noite nos encontramos cercados de figuras caricatas e nossa simpatia foi o suficiente para que nos encontrássemos durante outras duas noites na capital portenha. A segunda foi memorável pelo seu caráter escatológico e porque foi um gancho para terceira porque se quedou incompleta. A terceira noite merece um tratamento mais delicado, envolvendo um turbilhão de sentimentos e idéias que, por assim serem, merecem ser descritos com mais detalhes.
Encontramo-nos como se fosse uma despedida e de fato o foi, embora ela fizesse de tudo para que fosse um começo. Eu não tinha ânimo para ver naqueles encontros algo que temperasse a minha existência, mas com o tempo – esse irrefreável inquilino – as lembranças que eu teria daquele último encontro seriam todas doces, porque as lembranças se tornam mais saborosas com o tempo, e disso eu já sabia.
Antes que nos encontrássemos perambulando solitários pelas ruas de Palermo, havíamos dividido um táxi e, durante aqueles beijos e afagos calorosos, um hino nos visitava pelo rádio, brindando à noite. Era “Dar és Dar”, de Fito Paez. Um convite para que entrássemos no clima.
Assim que as outras companhias nos abandonaram, decidimos andar pelas ruas até que amanhecesse e chegasse a hora de a garota tomar um táxi e voltar para o hotel. O avião partia no mesmo dia. E mesmo vendo naquelas horas o roteiro de um filme romântico (ou erótico, visto que quase fizemos sexo no meio da rua) eu não encontrava forças para aproveitar o momento como se devia, tanto pelo cansaço e sono, quanto por necessidades mais urgentes, como a de urinar, embora fosse ela quem estivesse bêbada. Além disso, como se não bastasse, dos meus pensamentos – herdeiros de uma tristeza desmedida – não saía outra garota por quem eu nutria anseios irrealizáveis.
Já havíamos atravessado a Jorge Luís Borges por três vezes e logo na primeira eu havia lhe contado que se tratava de um dos maiores escritores do século. As ruas Nicarágua e Costa Rica já nos cansavam a vista e eu evitava a Godoy Cruz para que ela não inventasse de subir até o nosso apartamento.
Amanhecia quando homens de terno saíram de suas casas a trabalho. E nos divertíamos ao imaginar o que esses burocratas pensavam de nós dois. Andando pelo bairro boêmio encontramos também o garçom de um dos nossos locais preferidos ainda mais perdido que nós. O sujeito dormia num canteiro, debaixo de uma árvore.
Por ali perto resolvemos nos sentar para descansar, e quando todos os outros assuntos – literatura, cinema, arte etc. (era uma garota bem inteligente) – haviam sido esgotados, ela sacou seu iPod do bolso e resolveu me apresentar a cantora Cat Power, da qual era fã incondicional (tinha “Ramblin Woman” tatuado no pé direito). Eu nunca havia ouvido tal cantora e só a conhecia de nome. Ela colocou “Silver Stallion” para tocar e fechamos os olhos para ouvir.
Apesar das minhas indiretas, ela demorou a ir embora. Queria passar suas últimas horas comigo, e eu só pensava em ir dormir. Eu tentei pagar o táxi, mas ela rejeitou. Disse que eu já havia pagado o táxi anterior. Não nos encontramos mais e, não sei quanto a ela, mas, mesmo sabendo que nunca será a garota que mais amei em minha vida, tive com ela, talvez, uma das madrugadas mais românticas.

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3 Respostas to “Como conheci Cat Power.”

  1. Douglas 4 de março de 2010 às 13:26 #

    Digno de uma vida bohemia.

  2. Conrado 4 de março de 2010 às 21:25 #

    Olha, os começos costumam ser chatos, eu senti isso a cada começo de ano na faculdade. Acho que ao pensar no que pode ser, costumo pessimistar demais. Muito bem escrito esse texto hein. Coisa linda

  3. Gusto 5 de março de 2010 às 18:01 #

    Texto DAHORA
    engracado para quem conhece de perto a historia
    saudades b.a

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