Ao longo do tempo.

11 maio

por Conrado Passarelli.

De tão óbvio e evidente, por ser tão comum, ele passou despercebido em meio à multidão. Foi impresso em letras pequenas em algum canto da embalagem. Às vezes mais, às vezes menos, sempre tentando estabelecer um limite.
leia na íntegra.

Quantas palavras a mente seria capaz de gravar? Cada sequência, cada sensação nova. Aquele sentimento de surpresa da primeira vez. O prazer da descoberta. Uma leitura superficial incapaz de reparar e armazenar todos os detalhes. Incapaz de observar e entender o quadro como um todo.

O prazer de se repetir o que nos dá prazer. Algo bom e repetitivo. Vamos tocar a mesma música de novo, mas dessa vez eu assumo os vocais e você vai pra guitarra. Vai ser legal, vai ser igual e diferente. É hora do improviso. Ainda não ensaiamos essa versão, mas ficamos no palco 24 horas por dia, sete dias por semana. O espetáculo já completa um quarto de século em exposição.

Estamos indo bem, a cada dez repetições surge uma nova versão, já testamos várias posições e faz muitos anos que estamos casados. Nosso relacionamento não se resume a sexo, tem muito diálogo e admiração. Conversamos sobre os livros que lemos, sobre os filmes que vimos e chegamos à conclusão de que o sabor mais gostoso e verdadeiro parece vir do que é raro, vem do que vivemos coberto com pequenas gotas de fantasia.

Com certo medo do indefinido, essse desconhecido, vamos nos prendendo ao que é seguro, e por isso mesmo, adoramos surpresas. Nem sempre ficamos em paz. De vez em quando brigamos e ficamos muito bravos, depois rimos de nós mesmos por perder a cabeça por coisas tão pequenas, pormenores.

Rimos em frente da TV, vendo o programa de humor que vai desbotando lentamente, se tornando cada vez mais previsível. Fico me perguntando até quando seremos felizes juntos? Fico me perguntando se justamente se por não estarmos juntos é que ficaremos mais felizes a cada encontro.

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2 Respostas to “Ao longo do tempo.”

  1. espirrodabrisa 11 de maio de 2010 às 18:23 #

    Cara, tem um tom de melancolia, mas também é alegre, positivo. Corriqueiro e comum, e por ser comum, de fácil leitura, é bonito e soa muito bem. Foi um casamento perfeito entre o tema (que tema?) e o estilo de escrita. Muito gostoso.

    Parece uma canção do Legião Urbana, mas em prosa.

  2. Blancänieves 11 de maio de 2010 às 23:39 #

    Un recorte genuino de sinceridad cotidiana. Parece el matrimonio de un par de amigos, aunque no sabemos si serán del mismo sexo o es una pareja perfectamente complementaria. Compañía mutua, cariño real y algo de espontaneidad. Un texto muy lindo.

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