O país do futebol e da alegria. Um país com tendências hedonistas? Hehe.

12 maio

por SQ.

Ontem o país parou durante o almoço. Famílias se juntaram em frente à TV, amigos se encontraram na padaria, e os funcionários das empresas se acotovelaram para espiar a tela de LCD do refeitório. O motivo das reuniões era assistir a convocação da seleção brasileira para a Copa do Mundo. Ora, o Brasil é o país do futebol.
leia na íntegra.

Nosso país também é um país liberal. Temos a maior parada gay do mundo, nosso povo é alegre, nossas praias são quentes e as garotas se vestem com pouca roupa. Por outro lado, o treinador da nossa seleção é ranzinza; teme ser contraditório e preza pela coerência conservadora. Final da convocação: indignação geral!

Todo mundo queria ver os meninos da Vila na seleção. Até os jornalistas esportivos com as suas idiossincrasias eram um só coro unânime: deixar o Ganso fora da Copa? É brincadeira… Queremos um futebol alegre; queremos ousadia, coragem, desprendimento dos valores conservadores! Não queremos um time cheio de volantes! Precisamos de meias-armadores e atacantes despojados que fazem dancinhas depois dos gols!

Esse texto não é para ser irônico. Tampouco é uma crítica como as que eu ouvia quando tinha doze anos. Meu professor de história falava com raiva e solidão: o povo brasileiro é burro! Esquece todos os problemas quando o assunto é seleção brasileira; e se o Brasil ganha a Copa tudo está bem mesmo se ele continua na merda. Comprem Guaraná, não comprem Coca-Cola!

Hoje o Brasil está melhor. Bem melhor do Brasil dos meus doze anos. O povo continua fanático pela seleção, e nem por isso está mais burro. Burro é quem não se distrai vendo um joguinho de bola. Burro também é quem acha que toda sua felicidade depende desse mesmo joguinho e que sofre horrores se a seleção perde. Burro é o brasileiro que não sabe pelo menos um pouquinho de futebol. E burro é o Dunga que não convocou nem o Neymar e nem o Ganso!

Nosso treinador não conseguiu entender a vontade geral da nação: não basta ganhar, tem que ganhar jogando bonito! Queremos dribles e belas jogadas, e não jogadores obedientes taticamente cumprindo suas funções de cenho franzido.

Ele disse ontem na entrevista que precisamos apoiar os jogadores que lá estão defendendo com “patriotismo” nosso país e ainda disse que para saber se uma ditadura é boa ou ruim é preciso passar por ela (o que esse cara tem na cabeça?). E antes gritou com a voz fininha em uma propaganda de uma cerveja: nós somos guerreiros!

Que mané guerreiros!? Nosso país nunca entrou em guerra, a não ser o equívoco do Paraguai; desde então, somos um país que não tem inimigos. Nem a Argentina, nosso eterno rival no futebol, é tão rival assim. Não é a toa que o Messi foi aplaudido de pé no Mineirão há poucos anos quando jogava contra o Brasil. E também não é a toa que muito brasileiro saiu mais cedo do trabalho mês passado para ver o argentino, que é o melhor jogador do mundo, jogar pelo Barcelona.

Aliás, acho que os publicitários erraram na mão. Já não achamos tanta graça em ver argentinos cortando os cabelos e virando homens (?), ou seja, brasileiros. Nem queremos ver a cara feia do Dunga berrando com sua voz fininha. Em propaganda de cerveja não tem mistério: não queremos ver Dunga; nós gostamos de ver é bunda. Futebol brasileiro também não tem mistério: não queremos ver guerreiros; nós queremos artistas geniais, mágicos e palhaços.

Sem ironia, viva a alegria!

Anúncios

3 Respostas to “O país do futebol e da alegria. Um país com tendências hedonistas? Hehe.”

  1. Conrado 12 de maio de 2010 às 14:21 #

    sobre o futebol arte e a tática, eu lembro da seleção feminina de futebol do Brasil. As brasileiras já perderam várias finais e amargaram o gosto de serem vice-campeãs. Uma vez, ouvi comentaristas ressaltando a aplicação tática do time adversário, acho que era a seleção dos EUA. Naquela época, talvez, tenha faltado um pouco mais de arte do time da Marta e Cia, talvez elas tenham amarelado. Eu estou do lado da arte. Em 1994, um dos caras que ajudaram a trazer o tetracampeonato para o Brasil foi o Romário, o cara que não tem o perfil mais correto do mundo.
    Sobre as propagandas de cerveja, francamente…
    apesar de toda a babaquice, elas conseguem influenciar os mais desavisados, a campanha da Nova Schin, aquela do Experimenta, aumentou pra cacete as vendas.

  2. Blancänieves 13 de maio de 2010 às 0:27 #

    Puede ser… un país con tendencias hedonistas… mmm suena muy bien, que buen país, no?

  3. espirrodabrisa 13 de maio de 2010 às 12:26 #

    Gostei muito do texto. Bem diferente. Deu pra perceber que você está disposto a respirar novos ares sem o menor problema. Gostei como transitou pelos temas, cerveja, futebol, propaganda usando argentinos…

    É interessante notar o tom quase demagógico do texto. Digo que é interessante porque, apesar de você negar, soa como uma ironia. Mas, veja bem, essa ambiguidade pra mim é o charme do texto (especialmente a risada no título).

    Agora, e quanto às tendências hedonistas? Por acaso se trata daquela conversa que tivemos uma vez? Só temos que tomar cuidado com os mitos sobre a nossa identidade; não acho que o brasileiro seja um povo pacífico, nem liberal. Um bom exemplo disso é a nossa política.

    Quanto as guerras: se esqueceu que participamos da Segunda? Na época do Império também invadimos as Guianas. E as inúmeras revoltas e tentativas sufocadas de revolução?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: