Da defesa do lirismo nos atuais meios de comunicação.

11 jun

por SQ.

Seria um SMS piscando na tela de um celular high-tech menos poético que um bilhete entregue por algum servo no século XVIII? Um e-mail mais frio que uma carta escrita à mão chegando pelo correio? Seriam os meios atuais nefastos e assassinos do entusiasmo e do ardor na comunicação entre os enamorados?
leia na íntegra.

A aparente frieza dos meios cibernéticos deve-se, em sua maior parte, ao imediatismo que eles sugerem. A velocidade de um SMS elimina se não totalmente, grande parte do conteúdo de um bilhete. Do mesmo modo, a agilidade de um e-mail muitas vezes faz desnecessária uma carta. O imediatismo então eliminaria a “doce angústia” da espera que alimenta a chama da paixão.

O mesmo imediatismo, no entanto, pode ser encarado de forma agregadora. Se uma carta escrita à mão é insuperável quanto às emoções presentes no manuscrito – na folha que se pode tocar, cheirar e sentir os eflúvios de quem a escreveu -, o tempo lhe é inimigo quando a circunstância exige o imediatismo. Nesse caso o SMS e o e-mail são consideravelmente mais eficazes que seus “adversários”.

Sendo o momento o bem mais precioso que existe, nada a não ser o imediatismo pode nos confortar, acalmar, e nos encher de plenitude quando a palavra de quem amamos nos falta. Uma mulher que se sentiu insegura depois do último encontro com seu amado vê da maneira mais poética o “eu amo você” recebido no celular no exato momento de sua dúvida. Um enamorado preocupado lê do modo mais apaziguador a mensagem que sua amada lhe envia por e-mail dizendo que chegou bem em tal destino. Um homem evita perder o amor de sua mulher ao conseguir desculpar-se em poucas palavras, escritas e recebidas no momento correto.

Em todos esses casos, a carta, que tardaria a chegar, só deixaria os corações mais sofridos pela angústia e menos dispostos a fruição. Não confundamos com a “doce angústia da espera”. Nessas circunstâncias a espera se transformaria em demora, e a demora é fatal nas paixões, da mesma maneira que é a precipitação.

No que diz respeito à surpresa, vejo um possível equilíbrio entre os meios mais antigos e os novos, com leve vantagem aos meios atuais. Vejamos esses exemplos hipotéticos:

Estou vivendo longe de uma pessoa amada. Certa manhã uma carta aparece na caixa postal da minha casa. O envelope revela não ser mais uma das correspondências de contas a pagar ou de informes comerciais. Meu coração acelera. Na frente o meu nome e atrás o nome de quem eu amo, da destinatária mais importante para mim. O prazer que isso me dá é inenarrável. Não a abro de imediato, conservo-a intacta apenas para adiar prazerosamente o prazer que espero sentir ao conhecer seu conteúdo, assim como um amante experiente desfruta os momentos que precedem o fim da virgindade de quem ama.

Outro exemplo:

Estou viajando a horas num país estrangeiro. Estou cansado, dirigindo em uma estrada fria por caminhos que me levam cada vez mais longe dos meus amigos e das pessoas que eu amo. Penso na minha mulher. Onde estará ela agora? Por onde passará seu pensamento? E de repente, como uma coincidência telepática, meu celular vibra no meu bolso. Meu coração acelera. O nome dela aparece na tela e eu guardo o aparelho de volta. Desfruto o instante com todo o meu ser para só ler o conteúdo da mensagem na próxima parada. O prazer é igualmente inenarrável. Tenho mais disposição, mais coragem e mais vitalidade para seguir minha viagem.

Em ambos os exemplos o elemento principal é a surpresa. No primeiro caso a carta não é insubstituível, pois um SMS poderia estar ali no seu lugar, entretanto, o efeito não seria nem de longe o atingido pela carta. No segundo, a carta não poderia sequer substituir o SMS. Portanto o SMS teria leve vantagem também no quesito surpresa. Tendo isso em vista, seria a carta condenada ao desuso?

Uso a dialética comparativa para defender os meios atuais, não para atacar os meios antigos. Creio na possibilidade de agregação dos novos e não na necessidade de eliminação dos antigos. Ou seja, os meios atuais são mais usados na comunicação entre os enamorados, mas isso não quer dizer que os antigos não possam ou não devam ser usados.

Isso nos leva a outro debate recém discutido que é a entrada dos e-books no mercado literário. A dúvida se os e-books significariam a extinção dos livros de papel vem sendo debatida. Para viagens, o e-book será maravilhoso. Imagine poder levar dezenas de livros em um objeto que cabe na palma da mão. Embora a tecnologia seja incrível, a meu ver, ela não substitui a delicadeza do livro de papel, a possibilidade de cheirá-lo, de grifá-lo e de rabiscá-lo com anotações. Também nesse caso não vejo a necessidade de medo por parte dos amantes dos livros de papel nem da resistência à chegada dos e-books.

A carta escrita à mão é quase sempre mais romântica e lírica que um e-mail; um SMS é insuperável nas suas possibilidades, já que ele pode estar em todos os lugares em todo instante. Por outro lado, seu limite de caracteres permite um conteúdo reduzido. Mas para apaziguar um coração apaixonado o conteúdo de uma mensagem de amor necessitaria muitos caracteres?

As ferramentas atuais que comunicam as mentes apaixonadas são aliadas como devem ser as cartas, os bilhetes, e qualquer outra maneira de fazer-se comunicar o amor. O avanço tecnológico e científico não é um inimigo do lirismo, ao contrário do que amedontrava o Brave New World. “Eu amo você” nas telas cibernéticas não é menos intenso porque vibra digitalmente.

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2 Respostas to “Da defesa do lirismo nos atuais meios de comunicação.”

  1. Blancänieves 12 de junho de 2010 às 0:43 #

    Respecto al tema que planteas, estoy de acuerdo que la existencia de mail o SMS no mata, ni condena a la desaparición de la carta. Por el contrario pienso que se van sumando canales de comunicación que expresan de distinta forma un mismo anuncio, en este caso el amor. Uno tiene la opción de elegir que medio utilizar para comunicar de determinada forma el mismo mensaje, con más lirismo desde una epístola, o con la brevedad desde un SMS. Por mi parte vivo mucho la comunicación electrónica, pero siempre tengo la costumbre de dejar un mensaje a mano, siento que es más personal y más humano, y creo que la idea siempre es sumar.

  2. Conrado 15 de junho de 2010 às 8:56 #

    cartas sao muito bonitas, multisensoriais. SMS e e-mail são rápidos, assim como o seu deleite, estamos numa era de rapidez, assim como a velocidade dos meios de informação aumenta, aumenta a quantidade, ficamos cheios de informação e precisamos de cada vez mais para nos sentirmos bem, ou, cada vez menos, podemos resgatar o prazer de coisas simples e antigas. São sempre maneiras novas de se viver.

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