Nós enquanto veículos transportando genes egoístas… ou, Dawkins: o matador dos memes ilusórios!

15 set

por Gabriel Soares.

“Fascinante, mas, por vezes, o meu desejo era apagar o que havia lido… De um lado, posso partilhar o deslumbramento com que Dawkins, claramente, vê o desenvolvimento desses processos tão complexos…
Mas, ao mesmo tempo, acredito em grande medida que O gene egoista foi responsável por uma serie de crises de depressão que sofri por mais de uma década…” Escreveu uma leitora sobre o livro de Dawkins.
leia na íntegra.

Eu não quero causar depressão em ninguém. Escrevo aqui pra comentar a fascinação pela insignificância humana. Sem choro nem vela. O ser humano é apenas um veículo que transporta passageiros. Os passageiros são conhecidos como genes. Cada genezinho é uma porção de material cromossômico que viaja nos espermatozóides que serão fecundados. Quando o veiculo pára de funcionar ele pega carona em outro. Eles pulam de corpo em corpo. Os genes são para sempre. Nós não.

Os genes controlam nosso comportamento, não diretamente, mas indiretamente, já que fomos programados por eles. E eles são egoístas e adoram a trapaça, pois assim aprenderam a sobreviver. Em outras palavras, temos o egoísmo e a trapaça dentro de nós, ainda que possamos escolher não usá-los, educando-nos para tal. Aqui a viagem é a seguinte: somos os veículos, não temos escolha. Mas estamos com a mão no volante enquanto o motor funcionar. Liberdade?

Demos as boas-vindas aos memes. Maior trunfo do livro de Dawkins, o conceito de meme é teoricamente simples: direta analogia aos genes, no sentido de ser um replicador. Nesse caso, um replicador cultural, pois pula de cérebro em cérebro. Em outras palavras, os memes são idéias que por alguma razão (porque as próprias idéias são genuinamente interessantes ou porque foram doutrinadas) se firmaram na cultura e foram replicadas. Convidei os memes justamente porque agora vale à pena transcrever um parágrafo inteiro do livro:

“Temos o poder de desafiar os genes egoístas que herdamos e, se necessário, os memes egoístas com que fomos doutrinados. Podemos ate discutir maneiras de estimular e ensinar deliberadamente o altruísmo puro e desinteressado – algo que não existe na natureza e que nunca existiu antes na historia do mundo. Somos construídos como máquinas de genes e educados como máquinas de memes, mas temos o poder de nos revoltar contra os nossos criadores. Somos os únicos na Terra com o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas.”

Após 343 páginas encontramos um Dawkins otimista! Não sei se o parágrafo tranquilizaria a leitora que escreveu sobre sua década de depressão. Talvez ela nem tenha chegado até ali. Talvez Dawkins devesse ter aberto o livro com esse parágrafo; talvez o efeito não fosse tão perturbador. Talvez.

Permitam-me chamar Camus (podem pular esse parágrafo se quiserem), que nunca descansa aqui, realmente. Dawkins filosofa que somos os únicos com o poder da revolta. Certo, somos os únicos com o poder de planejamento, de reflexão etológica, portanto, sim, somos os únicos com o poder da revolta. Por quê? Por que temos consciência (não sou Descartes, nem vem). Camus tem razão. É preciso revoltar-se para existir. E para revoltar-se é preciso ser consciente do motivo da revolta. O motivo da revolta é dar-se conta de que é absurdo. O que é ser absurdo? Ser um veículo que anda sem direção alguma transportando genes serve pra você? Então estamos entendidos…

Não podemos culpar Dawkins pela depressão da garota do começo do post. Ou podemos? Ela estava programada memeticamente para acreditar em deus, nas fantasias do altruísmo desinteressado e afins; estava memeticamente programada para acreditar que ela era alguém muito especial e que havia um plano para ela e um anjo que a protegia de todas as coisas ruins! Ora, Dawkins foi bem claro e disse que temos o poder de nos revoltar contra os memes doutrinados. Portanto…

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