“Deus é amor”. Aos meus colegas de classe e às freiras que me educaram.

4 out

por Gabriel Soares

Ontem fui ao colégio onde estudei toda minha infância e começo da adolescência. Enquanto esperava na fila da votação corri os olhos pela classe. Imagens do cristo crucificado em todos os cantos, mensagens religiosas e fotos da Madre Clélia. Quanto esse ambiente me influenciou?
leia na íntegra.

Quando estudei lá eu não era ateu. Eu rezava, fechava os olhos, fazia o sinal da cruz e ajoelhava na capela onde toda semana a gente se reunia. Também escrevia alguma frase religiosa em todo início de cada prova que fazíamos. Fui catequizado praticamente todos os dias e no entanto hoje eu sou ateu; e a maioria dos meus amigos também. Por que isso?

Sou a favor do ensino secular, da retirada de objetos religiosos das classes e do ensino sistemático da evolução nas escolas. Mas se os efeitos que aconteceram comigo seguirem nos alunos de lá hoje, então que continuem com toda a propaganda religiosa nas classes!

As aulas de ensino religioso eram as mais aguardadas. Todos sabíamos que não tínhamos nada para aprender dali; era uma aula pra curtir, falar palavrões e fazer desenhos obscenos para provocar o recato da freira que provavelmente não depilava as axilas.

Lembro de uma aula onde a freira sugeriu uma atividade em grupo (zoeira prevista). Ela passaria uma folha em branco a começar pelo aluno da primeira fileira. Esse aluno faria um desenho e passaria adiante. Seguiria até que todos desenhassem alguma coisa “de amor a deus” e no final veríamos um desenho feito pela classe toda. Como era ingênua a freirinha…

O resultado não poderia ser diferente. Não faltaram pintos voadores, tetas gigantes, palavrões criativos e alguns “Nirvana” ou “Legiao Urbana” nos cantos da folha. Até as meninas entraram na onda e se liberaram: algumas desenharam flores, paisagens belas com alguns palavrões escondidos. No final da atividade, estávamos todos excitados, empolgados e ansiosos para que o desenho fosse exposto.

Quando viu a folha, a freirinha entrou em choque. Inicialmente tentou acusar aquele (eu) ou outro aluno mais problemático de corromper a atividade, mas acabou se dando conta de que toda a sala participara subversivamente da atividade, e portanto punir todos era inviável. Ela então deixou a classe… Gritos ecoaram na sala, pegamos o desenho e colamos na porta. Tomamos o poder! Nesse dia aprendemos a importância da cooperação e da força de um grupo coeso.

Adorávamos os livros de ciência. Ali nos inspirávamos com as páginas que mostravam os órgãos genitais em desenhos super excitantes. Quando tinha missa geral, onde toda a escola se reunia, aproveitávamos para forjar ereções e impressionar as garotas sentadas ao nosso lado, que por sua vez, deixavam escapar risos lúbricos atrás dos uniformes ninfo-sensuais enquanto seguravam a cartilha que continha cânticos e as orações.

Era durante a palestra de “amor cristão ao próximo” nas festas juninas (adorávamos perder aula para ir aos ensaios e poder passar a mão nas meninas no túnel da quadrilha) que entrávamos em guerra, estourando bombas nos alunos mais novos e mais fracos.

Recreio e futebol sempre foi nosso combo preferido. Na falta de bola usávamos latinhas vazias. Passou é bicudo ou “sarga”. Chegando em casa respondíamos aos pais ingênuos: aprendemos bastante sim…(lição do dia: correr, desviar e aguentar os chutes até se salvar na trave).

Tinha também os jogos da amizade, onde alunos de outros colégios religiosos vinham participar. Nas arquibancadas, ao som de batuques e bandeiras, cantávamos juras de morte aos visitantes. Quando éramos nós os visitantes, cada um levava um estilete nas meias e facões nas mochilas. A lei era simples: bater em casa e tentar não apanhar fora.

Sagrado Coração de Jesus. Esse é o nome da minha escola. É ali que gostaria que meu filho também estudasse para aprender muito sobre a vida, em especial, a natureza humana. É num ambiente conservador assim que se aprende a revoltar-se, e o que seria da vida sem a revolta?

Que continuem as imagens patéticas de um cristo sofrido, pregado e impotente nas paredes das escolas, se isso despertar o desejo da potência, da rebeldia e da subversão. Que continue o ensino de histórias bíblicas e fajutas se isso aguçar o senso crítico.

Pra terminar, conto uma historieta que se passou durante uma aula na escola dominical. O pastor (é, eu estudava num colégio católico e aos domingos ia à igreja protestante pra agradar ambos, meu pai e minha mãe) pediu para imaginarmos uma situação: por um dia teríamos o poder de deus em nossas mãos, ou seja, poderíamos ajudar muita gente, fazer coisas boas, enfim… por um dia somos deus, o que faríamos?

Meu amigo Wesley começou dizendo que faria com que o Palmeiras ganhasse de MIL a ZERO do Corinthians. Isso irritou o pastor que decidiu nem continuar ouvindo o resto da turma. Me regozijo ao lembrar desse caso e do que aprendi com o Gene Egoísta de Dawkins… como eram estúpidos esses pedagogos. Que continuem!

* foto do filme Das Tripas Coração. Recomendadíssimo!

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3 Respostas to ““Deus é amor”. Aos meus colegas de classe e às freiras que me educaram.”

  1. Conrado 4 de outubro de 2010 às 19:25 #

    HUAEHUIAEHEUAHAUEIHEAUIHEAIUHAEUEAH
    as histórias são geniais! fantásticas, eu morro de rir com elas. O ensino religioso tem seu lado positivo.

  2. Pedro Mendes 5 de outubro de 2010 às 11:02 #

    Mto bom, fazia tempo que não via um senso lúdico nessa revista .. Que nossas crianças sejam salvas do Sr. Jesus Cristo, o policial abstrato!!!

  3. Pedro Peruzzo 15 de outubro de 2010 às 19:25 #

    PUTA QUE PARIU!! aiuhaiua Fantástico!! “Gritos ecoaram na sala… Tomamos o poder!” Por quantas e quantas vezes… A professora de ciências que mais parecia uma puta reprimida que tentou substituir a Dona Nilva, de quem tanto gostávamos… a segunda professora de ciência, que saiu chorando da sala!! Sem contar o dia da revolução, ocasião em que meninos e meninas empunharam pedaços de pau e se recusaram a entrar na sala de aula!! Um salve à não submissão! Um salve à liberdade sexual!

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