Facebook e as caras. Ou o sonho ridículo de um homem do século XXI.

26 jan

por Gabriel Soares.

Outro dia eu sonhei com um cara. Ele me perguntou. Cara, que história é essa de facebook? O livro da cara? A cara do livro? Eu devolvi. Que livro, cara? E aí ele se espantou… Será que só pela minha cara ele já sacou que eu nunca tinha lido um livro na vida? Mas eu também me espantei com a cara dele. Peraí, como assim você não conhece o facebook, cara?

Tava explicado. O cara era do séc XIX. Naquela época não existia facebook. Ah, no século XXI não tem livro… ele resmungou. Não! Quer dizer. Não é isso, tem livro sim po! Mas é que… Então eu tive que explicar que hoje em dia ninguém precisa mais ler um livro. Assim. A gente lê, mas no computador. Eu mesmo nunca li um livro inteiro, mas se for contar as frases e as citações que eu postei no meu perfil, dá muito livro. Isso me lembra Montaigne, ele disse. “Seria preciso saber quem sabe melhor, e não quem sabe mais.” Tá aí! Curti esse cara! Vou postar no meu mural. A galera vai curtir a frase, tenho certeza.

Ele ainda parecia confuso. Me explica melhor esse negócio de postar, de mural. Isso tudo é sobre esse tal facebook? É um lugar onde as pessoas se reúnem para discutir trechos de livros? Então… eu falei. Não só isso. Dá pra postar cenas de filmes, clipes de música, um monte de coisa. Cenas? Clipes? Ah entendi! Esses filmes de vocês são como eram as representações de teatro? Mais ou menos, eu falei. Na verdade ainda existe teatro, eu acho.

Como eu ia dizendo… o facebook não é só isso. Às vezes a gente apenas escreve o que a gente tá sentindo ou fazendo no momento. Tipo: to de saco cheio da vida. Ou: to indo dormir. Depois que eu disse isso o cara se empolgou demais. Entendi! É como se fosse uma ágora! Vocês realmente sabem dar valor a filosofia. Eu sempre imaginei que os jovens dos séculos futuros seriam muito mais intelectualizados que nós. Tudo isso é lindo, muito lindo. Me fale mais sobre esse facebook!

ps. – eu já tinha lido muita coisa bizarra na internet. tudo bem, às vezes escrevo alguma coisa errada. mas meu, eu nunca vi ninguém colocar um acento no “a” pra escrever agora.

É. É tudo agora, ou seja, dá pra escrever o que você quiser e todo mundo pode ler no momento em que você escreveu. Acho que pra isso, o melhor mesmo é o twitter. É parecido com o facebook… ah cara, mais fácil você falar um pouco da sua época, depois eu te explico o que é o twitter.

Ah… ele parecia decepcionado. A minha época, cara? É, ué… eu resmunguei. Não tem nenhum site de relacionamento pra interagir com seus amigos? Site? Ah, eu não tenho muitos amigos. Poderia dizer que meus melhores amigos são os livros. Hum, entendi. Eu também tenho poucos amigos. Contando a menina que eu resolvi aceitar o request ontem, acho que ainda estou na casa dos quatrocentos. Nesse momento o carinha enlouqueceu de vez.

Como assim? Quatrocentos amigos? Como é possível ter tantos amigos!? Vocês são lindos. Vocês são realmente lindos. Você é louco cara, deixei escapar. Eu sei, ele respondeu. Minha família fala que eu vou acabar igual o Dom Quixote de tanto ler livros. Às vezes eu me sinto mesmo um idiota como o príncipe Michkin, mas o que o Dostoiévski queria dizer com essa personagem era justamente isso, ninguém entendeu que a bondade dele…

Meu novo amigo começou a viajar demais. Começou a falar um monte de nome de livro, escritor, personagem e não deu pra acompanhar. No começo eu até tentei, eu juro. Tirei até um print screen pra subir como foto no face depois, e mostrar o tanto de aba que eu consegui abrir do Wikipédia no Mozilla. Sério, acho que nem no Redtube eu tinha aberto tanta aba. Mas nem assim eu consegui seguir o cara, era muita viagem.

Então eu falei. Cara, na boa. Você é nerd pra caramba. Não te tirando, mas é que eu nem sei do que você ta falando. Vou indo nessa, me deu uma fome… e até falar tchau pra essa galera que tá piscando aqui no MSN vai demorar ainda. Não leva a mal não. A gente se encontra qualquer sonho desses!

Mas o sonho não acabou aí. Não sei porque, mas comentei sobre esse carinha com uma mina cabeça, que eu achava que me dava mole porque só entrava off pra falar comigo. Ela era… como posso dizer? Aquele tipo de garota sabe-tudo de cinema. Já tinha visto todos os filmes possíveis e o face dela era lotado de páginas dos seus diretores prediletos.

Ela não acreditou que eu fechei a janela do cara e nem anotei o email dele. Ela disse que esse carinha devia ser muito foda, e eu era muito burro de ter perdido o contato dele. Eu me lembrei de alguma coisa que o cara disse na pira dele, algo com kamo… então falei, relaxa, eu sou como um personagem do Dostoiévski, um kamikaze louco suicida.

Achei que tinha ganhado a mina cult depois dessa. Mas depois de uns três minutos ela me respondeu… (certeza que conferiu no Wikipédia, eu também deveria ter conferido antes, mas dessa vez resolvi escrever direto, e me fodi.) Então ela disse. Não é kamikaze, é Karamázov. E não é suicida, é parricida.

Eu não aguentei e falei mesmo. Você se acha cult mas na verdade não vive sem o Wikipédia. Você é fake! Fala que não perde tempo com a internet mas fica mais tempo aqui do que eu… só que fica off e eu fico online mesmo. Cai na real vai.

NOSSA VC É RIDICULO MESMO. Ela escreveu em caps lock. Completou depois. Vou ver o ultimo episódio de Big Bang Theory que eu acabei de baixar que eu ganho mais. E eu nunca soube se ela foi embora mesmo ou ainda estava lá. Afinal ela só entrava off.

Me senti um idiota como o meu amigo do séc. XIX. Agora eu lembro perfeitamente. Ele disse. O suicídio era do “Um homem ridículo” e não dos “Irmãos Karamázov”. Mas não se preocupe. Dostoiévski nunca foi muito bem adaptado no cinema mesmo. Acho que você deveria ter tentado Fitzgerald. Grande Gatsby. Com certeza a garota iria se amarrar.

Mas de onde teria saído essa última frase? Como ele sabia disso se eu já tinha fechado a janela dele? Como ele sabia de Fitzgerald se ele ainda não era da sua época? Esse Wikipédia é uma merda! Eu sabia que devia ter escolhido outro escritor. Quem é do século XIX e foi bem adaptado no cinema? Mas que merda! Isso tá me cheirando Kafka! Mas ele não era do séc. XX? Ahhhhhh que absurdo!!! Camus, me salva! Estou ficando louco. Calma amigo do séc. XXI, nunca ouviu falar em Erasmo de Rotterdam? A loucura é cult! ……………………..[Logout].

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6 Respostas to “Facebook e as caras. Ou o sonho ridículo de um homem do século XXI.”

  1. Tulloluanus 27 de janeiro de 2011 às 19:44 #

    Demais!Demais!Demais! Texto inteligente, engraçado e mordaz.Esse é o nosso Gabrielzinho!

  2. conrado 29 de janeiro de 2011 às 8:12 #

    muito bem! abrira mais abas que no redtube ahuahuiehiaeuhaeuihaeiuhaeuiahe. gostei além do redtube, é uma grande realidade 400 amigos dos quais até 5 são de verdade. Conhecimento fake… abraço

  3. Fabricio Vital 1 de fevereiro de 2011 às 18:28 #

    Têm 200, 300, ou 400 ” amigos” , mas nem 50 são colegas/conhecidos , ” curti-se” centenas de coisas , mas sabe-se profundamente sobre nada, é o Facebook, vida vazia …

  4. Vinicius 77 8 de fevereiro de 2011 às 15:41 #

    A vida não está vazia está é cheia, não há mais espaço para o silêncio e não há mais tempo, o tempo se atualiza a todo instante na tela de nossos computadores nos deixando com uma estranha sensação de inexistência.

    Parabéns por esse texto.

  5. Leonardo 9 de fevereiro de 2011 às 0:03 #

    Bom texto. Entendi como uma alfinetada divertida à juventude internauta, sem conteúdo mas com fácil acesso à qualquer tipo de informação, acostumada com a virtualidade das suas relações.

  6. Cauê Mendonça Cardoso 3 de março de 2011 às 11:13 #

    HAhahahahaha Grabriel, ainda não tinha lido nada tão pós-moderno (no sentido temporal mesmo, não de corrente teória) quanto este seu texto. Algo totalmente diferente… E, assim, mais uma dicotomia é criada.

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