O lado negro.

7 fev

por Gabriela Bruschini.

Este final de semana estive no cinema Reserva Cultural, localizado no prédio da Gazeta, Avenida Paulista. Dois dias após a estréia de “Cisne Negro”, compareci ali para assisti-lo. Lembrei-me muito de “O Anticristo”, de Lars Von Trier. Este último é bem mais forte, sem dúvida, mas é a mesma sensação de estar assistindo a um filme de terror psicológico. Também não duvido que 90% da sala de cinema precisaram aliviar a catarse provocada debatendo o forte candidato ao Oscar com outras pessoas depois.

Lembrei-me também de “Morte em Veneza”, romance de Thomas Mann. Tendo se focado muito a vida num estilo de vida que buscava entender o que é a perfeição, o protagonista, Gustav, não era compreendido nem apreciado. Numa viagem a Veneza, ele se depara com um jovem, Thazio, no qual, segundo Rosenfeld (1994, p. 183) “[Gustav] Aschenbach vê no jovem Tadzio o reflexo temporal da beleza eterna, do ideal sempre perseguido e de tal modo irresistível na sua encarnação que se acha moralmente desarmado diante da imagem perfeita”. A obsessão de Gustav pelo menino o leva a se questionar sobre tudo que acreditava, levando-o ao desespero.

“Cisne Negro” também fala sobre perfeição. Natalie Portman interpreta Nina, uma jovem bailarina que tem a oportunidade de ser a principal dançarina de uma versão adaptada do balé dramático “O Lago dos Cisnes”, de Thaikovsky. Nessa versão ela precisa interpretar dois lados de uma princesa transformada em cisne: o branco – com suas delicadezas, movimentos leves, aparentemente ingênuo – e o negro – o lado sedutor, dissimulado, vingativo. Nina desempenha o cisne branco com facilidade, mas não o negro. Ficando cada vez mais dependente e escrava dos pensamentos até aterrorizantes de sua psiquê, a bailarina passa a transformar a vida num embolorado de atos doentios em relação a si e aos outros, se confundindo várias vezes se os fez ou só imaginou.

Muita gente deve ter achado mórbido, absurdo, como se os pensamentos de Nina acontecessem somente nos portadores depressão crônica, esquizofrenia. Só que, na verdade, todas as pessoas, sem exceção, possuem seu lado negro.

Imagine a seguinte situação. Aquele modelo de família americana mostrado nos seriados: feliz, desencanado, superficial. Pais e filhos estão reunidos na frente da TV assistindo a um filme de comédia, no qual dois caras estão conversando sobre sexo e envolvem alguém da família nesse diálogo, insinuando a relação sexual por exemplo com um primo, pra que aquilo seja uma piada. A família ri à beça. Não é porque a piada foi muito bem elaborada. Se esse tipo de ato proposto fosse encarado como uma completa aversão, ninguém teria rido. Eles só riram porque todos, já imaginaram, um dia, a realização do mesmo ato. Mesmo que por cinco segundos. Mesmo que por um segundo e sendo automaticamente reprimido no outro. Ou inconscientemente.

A corrente de pensamentos, lógica ou analógica, não pode ser jamais controlada. Um monte de fantasias, por mais sujas que sejam, nos atravessam algumas vezes por dia. É pra isso que existe a moral. Pra que nem todo desejo possa simplesmente explodir, já que alguns prejudicam os outros – como assassinato, estupro, alguma forma de manipulação.

O curioso aqui é perceber as muitas formas com que as pessoas lidam com seu lado negro, quando ele aparece mais forte. Alguns sentem tanta frustração com essa obscuridade inevitável dos flashs da imaginação, em não poder realizá-la, que se afundam como Gustav num desespero terrível. Outros sentem tanto nojo de sentirem essas coisas risíveis ou medonhas para os outros que se reprimem a ponto de modificar a personalidade, o modo de tratar os outros. Até mesmo existem os que os assumem e deixam a outra metade à mostra, assumindo posturas intimidadoras, darks.

Existem os que se apoderam do lado negro, como Nina, para melhorar suas performances profissionais, como estímulo para alguma realização, competindo consigo (o que é bom quando essa estratégia tem resultados positivos). E também os que têm a capacidade de perceber o quão ter o lado negro é complementar para a existência, buscando teorias para o amenizarem, deixando-o onde ele pertence: assim, por dentro.

Se perfeição é o equilíbrio encontrar o lado negro e o estabilizar com o outro? Acho que não. Aceito o próprio equilíbrio como em movimento; sua estabilidade não vai, em nenhum momento, chegar a existir. É como uma balança que está sujeita a sempre ir um pouco para baixo e um pouco para cima, é dinâmico. Assumir o lado só da leveza (veio à cabeça agora Milan Kundera) também tem seus riscos, tantos quanto o do que pesa. É aceitar que ela também nos cega, nos dificulta compreender algumas coisas mais densas.

Ambos têm necessidade de vir à tona tanto quanto de serem contidos. Aí é entender o limite entre a angústia e a satisfação. Caçar um dos lados da existência é se satisfazer. Porém quando essa busca se torna sem limites, sem concessões, ela angustia muito mais que satisfaz.

É como entender o nome do álbum de Pink Floyd, The Dark Side of The Moon (“o lado escuro da lua”). A lua é em si totalmente escura, apesar de a desenharmos branca. O sol que a ilumina completamente. Talvez a perfeição esteja não em decidir um entre o transparente ou obscuro. Se os dois estarão pra sempre em órbita como a lua em relação ao sol, não há nada que nos permita interromper. Melhor viver cada um e se utilizar do que eles nos proporcionam, em cada situação, a simplesmente fingir que o mais aterrorizante não tem suas horas de evidência.

Black Swan, por Darren Aronofsky (2011):

Death In Venice, versão do romance de Thomas Mann, por Luciano Visconti (1971):

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3 Respostas to “O lado negro.”

  1. Conrado 8 de fevereiro de 2011 às 20:36 #

    uau! texto intelectual! hahahaha brincadeira, mas eu gostei mesmo, esse filme parece muito interessante.
    e o texto bem escrito.

  2. Cauê Mendonça Cardoso 3 de março de 2011 às 11:06 #

    Excelente texto!! Apenas não assisti ao filme ainda porque prometi a minha irmã que esperaria por ela… Can’t wait!

    Humm…. “(…)entender o limite entre a angústia e a satisfação.” (…) “Caçar um dos lados da existência é se satisfazer. Porém quando essa busca se torna sem limites, sem concessões, ela angustia muito mais que satisfaz.”

    Realmente, muito bem escrito.

  3. strikingquadra 14 de março de 2011 às 1:35 #

    Gabriel Soares

    Vi o filme neste ultimo sábado. Parabens a Natalie Portman que fez maravilhosamente o papel de uma menininha reprimida e criada literalmente com a mae. A personagem é um nojo só. Um bicinho de matar com pedrinha como diriam os caras do Hermes e Renato. O sonho de ser bailarina de sucesso na verdade é da mae, que teve q encerrar sua carreira pela gravidez da filha, natalie.

    Quanto ao lado negro. Discordo em absoluto. O filme nao fala sobre o lado negro especialmente, mas o que pra Nina é negro devido as repressoes da mae babaca. Se masturbar, fantasiar sexo oral com a amiga, sair pra beber uma noite antes da apresentacao do importante espetaculo de ballet classico. Isso é fazer florescer o lado negro?

    Um filme pra pegar nojo da personagem, enaltecer a atuacao da natalie, parabenizar os maquiadores e estender a mao ao diretor que fez um filme liberal mas q com certeza sera encarado de maneira conservadora pela maior parte da plateia.

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